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Covid-19 – Não são apenas números

Além das estatísticas, vidas interrompidas e famílias abaladas

Enquanto estava em coma, a dona de casa Diva Bandeira de Melo Gonçalves, de 58 anos, sofreu perdas irreparáveis: sua mãe e uma de suas irmãs morreram. Residentes em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, as três mulheres contraíram coronavírus e tiveram que ser hospitalizadas às pressas. Silvanira Bandeira de Melo, 84 anos, e Zenaide Bandeira Santos, 64 anos, morreram no mesmo dia (13 de maio). Diva soube das mortes quase duas semanas depois, quando deixava o hospital.

Silvanira e Zenaide estão entre as 334 vidas perdidas no Paraná por causa da Covid-19, segundo balanço da Secretaria Estadual da Saúde divulgado na segunda-feira, 15 de junho. No Brasil, a doença já contaminou quase 900 mil pessoas e causou mais de 43 mil mortes. Esses números colocaram o país como a segunda nação do mundo onde o coronavírus fez mais mortos e infectados.

Vazio – Os efeitos da pandemia de coronavírus no país preocupam a população de modo geral, mas se tornam realmente assustadores quando as vítimas, sobretudo fatais, são pessoas próximas. A professora Karin Jociele de Melo Gonçalves, filha de Diva, conta que ainda é difícil acreditar em tudo o que aconteceu com a família dela, que mora numa comunidade pouco habitada. “Vivemos num bairro tranquilo, com poucos moradores. As pessoas aqui geralmente envelhecem, chegam aos 80, 90 anos. Não estamos acostumados a perder duas pessoas assim e ver outras ficando doentes (ao todo, seis pessoas da família contraíram o coronavírus) e, no caso de minha mãe, até correndo risco de morte. Em um mês, a gente viu tudo desandando, as pessoas já não entendiam mais nada, foi muito rápido. De repente, já estavam as três na UTI, morreram as duas e não sabíamos se minha mãe sobreviveria”.

Lina com o marido, Rodrigo Apolloni, e o irmão Maurício com a esposa Danielle Marotti Saheki. Foto: arquivo da família.

Karin conta que família dela é muito unida e ficou extremamente abalada. “Na verdade, isso arrasou a nossa vida. Eu acho que vai levar muito tempo para amenizar todo esse sofrimento. Minha mãe está sofrendo muito, pois era difícil passar um dia em que não convivia com minha tia e minha avó.” Ela considera que muitas pessoas ainda não têm a devida dimensão da gravidade da pandemia de Covid-19. “As pessoas acham que essa doença não é tão grave, que é só uma gripezinha, mas, dependendo do organismo, a pessoa pode morrer, como aconteceu com minha avó e minha tia. Eu faço  questão de contar o que aconteceu com minha família exatamente por isso, para que quem saiba da nossa história possa se prevenir, se conscientizar de que isso não é brincadeira. A gente se julga protegido, acha que adotando cuidados estará livre. Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer com minha família, mas infelizmente aconteceu.”

Bondade que fará falta – Muitas pessoas ainda acreditam que o coronavírus pode ter efeitos graves apenas em quem já passou dos 60 anos. Os óbitos confirmados mostram, porém, que isso não é verdade. Pessoas mais jovens, com ou sem histórico de doenças, também podem ser afetadas, com consequência fatal.

O médico infectologista Maurício Naoto Saheki, da Fiocruz e do Instituto de Infectologia São Sebastião, no Rio de Janeiro, com familiares no Paraná, foi uma dessas pessoas. Ele morreu no início de maio na capital fluminense, após ficar 12 dias internado. Sua irmã, a professora e empreendedora Lina Saheki, moradora de Curitiba, conta que, em uma conversa com amigos infectologistas, ele chegou a falar sobre a possibilidade de morrer como vítima da Covid-19 – até porque essa realidade é muito presente no cotidiano desses profissionais. “Porém, ele disse que não tinha medo de morrer, que não teve filhos, nem deixou de realizar muitos dos seus sonhos. Tinha apenas o desejo de que a esposa ficasse bem, mas que não deixaria desejos por realizar”, conta Lina.

O médico também havia conversado com os familiares sobre os riscos e pediu que, caso ficasse doente, não fossem visitá-lo, até porque isso não seria viável, já que não há visitas para pacientes de Covid-19. Pediu também que, caso falecesse, ninguém fosse ao rito funerário, realizado com vítimas de coronavírus de forma rápida e em caixão lacrado. De fato, isso acabou acontecendo, mas porque a família não conseguiu chegar a tempo para o velório e o enterro. “Foi tudo muito rápido: em um dia, parecia ser só uma gripezinha que iria passar; três dias depois, ele foi entubado na UTI e, doze dias após a internação, ele faleceu. Durante a internação, não conseguimos nem falar com ele, porque ele não tinha forças para falar. Não pudemos nos despedir porque ele morava no Rio e nós em Curitiba e não conseguiríamos chegar a tempo por causa da pandemia. Meus pais não puderam se despedir do filho de 41 anos que deu a vida nessa luta. Os dois, mas especialmente minha mãe, não conseguem processar bem a ideia de não ter podido se despedir do filho. Ela não se conforma de não ter conseguido, como mãe, cumprir essa última missão. Se já é extremamente difícil a ideia de filhos partirem antes dos pais, a cena do sofrimento diário de uma mãe que não pôde se despedir do filho é particularmente dolorosa.”

Sobre as mudanças na vida da família, Lina é enfática: “A nossa vida não mudou, ela acabou. A vida tal qual conhecíamos, as nossas próprias identidades, elas foram destruídas. A vida dos meus pais, a minha, do meu irmão caçula e da minha cunhada, a vida como a concebíamos, não existe mais. Não só aquela vida não existe mais, mas a nossa própria identidade está tendo que ser reconstruída.” Apesar de toda a tristeza, ela diz que, nos últimos dias, a família também teve momentos de beleza e de intensa comoção. “O que nos ajuda a conferir sentido a tudo isso é a percepção de que ele era amado, de que ele permanece amado. Só o amor pode nos salvar desta dor abissal. Mas não somente o nosso amor, é a corrente de amor que foi se desvelando e nos envolvendo após a sua morte.”

 

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